A popularização das chamadas canetas emagrecedoras, utilizadas no tratamento da obesidade e do diabetes, tem ampliado também a preocupação de médicos e autoridades sanitárias com a circulação de produtos falsificados ou de procedência desconhecida. Comercializados principalmente pela internet e por canais informais, esses medicamentos podem apresentar composição, dosagem e condições de armazenamento diferentes das previstas pelos fabricantes, expondo os consumidores a riscos graves.
O alerta ganhou dimensão internacional em junho de 2024, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou ter identificado três lotes falsificados de medicamentos à base de semaglutida encontrados no Brasil, no Reino Unido e nos Estados Unidos. Segundo a entidade, produtos falsificados podem conter doses incorretas, substâncias desconhecidas ou ingredientes potencialmente nocivos. No Brasil, as ações de fiscalização também revelam o avanço do mercado irregular de medicamentos injetáveis.
Em maio de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que inspeções realizadas entre janeiro e abril daquele ano resultaram na apreensão de mais de 1,3 milhão de unidades de medicamentos injetáveis irregulares. Dos 26 estabelecimentos avaliados, oito foram interditados. Em outra ação, realizada em abril em parceria com a Polícia Federal, foram identificadas transações irregulares de R$ 4,8 milhões envolvendo tirzepatida em quantidade suficiente para produzir mais de 1 milhão de dispositivos injetáveis.
A situação voltou a chamar atenção em setembro, quando a Anvisa determinou a proibição da importação, armazenamento, distribuição, comercialização, propaganda e uso da caneta emagrecedora T36. O produto não possui registro sanitário no país e, conforme a agência, sua segurança e eficácia não foram avaliadas no Brasil. Para o médico Fabrício Araújo, especialista em saúde hormonal masculina, obesidade e medicina de longevidade, um dos principais riscos está justamente na impossibilidade de confirmar o conteúdo de produtos adquiridos fora dos canais autorizados. A utilização de uma dose incorreta ou de uma substância contaminada pode provocar consequências graves ao organismo.
O médico ressalta que a facilidade de compra por meio das redes sociais pode levar consumidores a tratar medicamentos de uso controlado como produtos comuns. Além da falsificação, medicamentos injetáveis irregulares podem apresentar contaminação microbiológica, falhas no processo de esterilização e problemas relacionados ao armazenamento. As condições inadequadas podem comprometer a qualidade e a segurança do produto antes mesmo de sua aplicação. O especialista destaca que existe uma diferença entre utilizar um medicamento com indicação médica e adquirir uma caneta por recomendação de terceiros ou pela promessa de resultados rápidos.
O tratamento da obesidade deve considerar o histórico clínico, as condições de saúde e as necessidades individuais de cada paciente. As canetas emagrecedoras podem integrar estratégias de tratamento da obesidade quando há indicação clínica e acompanhamento profissional, mas seu uso não deve ocorrer de maneira indiscriminada. A orientação médica é necessária para definir a utilização adequada e acompanhar possíveis efeitos e resultados. Para o especialista, o objetivo do tratamento deve ultrapassar a simples redução do peso corporal e considerar a melhora da saúde e da qualidade de vida.
Nesse contexto, a busca por resultados rápidos não deve levar o consumidor a recorrer a medicamentos sem procedência comprovada. A recomendação é que pacientes desconfiem de produtos vendidos por canais informais, especialmente quando não há informações claras sobre origem, registro e condições de conservação. A aquisição de medicamentos por meios autorizados e o acompanhamento de profissionais de saúde são medidas importantes para reduzir os riscos associados ao tratamento. Com o crescimento da procura por medicamentos para controle do peso, o avanço do comércio irregular reforça a necessidade de atenção dos consumidores e de fiscalização permanente das autoridades sanitárias.
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