Degas ganha novas leituras em exposição no Instituto Ricardo Brennand

Pela primeira vez, um conjunto de obras originais de Edgar Degas (1834-1917) chega ao público pernambucano em uma parceria entre o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP) e o Instituto Ricardo Brennand. A exposição “Degas/Borges” abriu na última sexta-feira (25), na Pinacoteca do Instituto Ricardo Brennand, no Recife, reunindo 40 esculturas em bronze do artista francês e fotografias produzidas especialmente para a mostra pela artista visual e curadora paulista Sofia Borges.


A iniciativa estabelece uma aproximação entre dois momentos da história da arte ao colocar a produção de Degas, um dos principais nomes da arte francesa do século 19, em diálogo com uma pesquisa contemporânea sobre imagem, corpo e representação. O projeto é realizado pelo Instituto Ricardo Brennand e pelo MASP, com apresentação do Bradesco, por meio da Lei Rouanet, e patrocínio do Bradesco e da Cimento Nacional.

A curadoria é assinada por Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, do MASP, enquanto a apresentação local é de Beth da Matta, artista visual, curadora e gestora cultural. Para a mostra, Sofia Borges passou um ano fotografando as esculturas de Degas pertencentes ao acervo do MASP, explorando detalhes, volumes, gestos e fragmentos das obras.

O resultado não se limita ao registro fotográfico das esculturas. As imagens produzidas pela artista propõem uma nova maneira de observar trabalhos conhecidos, aproximando o visitante de aspectos que podem passar despercebidos diante das peças originais. A experiência também amplia a discussão sobre a representação do corpo feminino na obra de Degas e sobre o contexto social das personagens retratadas.

Entre os destaques da exposição está “Bailarina de catorze anos”, uma das obras mais conhecidas de Degas e considerada um marco da história da escultura. A peça representa Marie van Goethem, adolescente que estudava balé na Ópera de Paris e cuja trajetória esteve marcada pelas dificuldades financeiras da família e pelas condições sociais de seu tempo.

É justamente sobre essa personagem que Sofia Borges concentra parte de sua investigação. Ao comentar a escultura, a artista destaca a complexidade da figura representada por Degas. Segundo ela, a obra apresenta “uma beleza, uma graciosidade também”, mas carrega outras dimensões que vão além da aparência da bailarina. Sofia também ressalta “a complexidade de ter escolhido essa menina” e a tentativa de revelar “a grandeza dessa” personagem.

A leitura contemporânea também permite observar as relações entre corpo, trabalho e condição social presentes nas esculturas. Beth da Matta chama atenção para o fato de Degas ter desenvolvido um olhar particular sobre o corpo das bailarinas, afastando-se de uma representação exclusivamente idealizada ou sensualizada. Para ela, havia no trabalho do artista “um olhar curioso sobre esse corpo, que trabalha, esse corpo que sofre”.

Essa perspectiva ganha novas camadas quando as esculturas são observadas por meio das fotografias de Sofia Borges. A artista trabalha com aproximações e fragmentações que modificam a percepção das peças e permitem que detalhes da anatomia, dos movimentos e das expressões sejam percebidos de outra maneira.

A expografia reforça esse diálogo. As fotografias de Sofia Borges são apresentadas em grandes dimensões nos cavaletes de cristal concebidos por Lina Bo Bardi para a sede do MASP, inaugurada em 1968. Os suportes transparentes, apoiados sobre bases de concreto, retiram as obras da parede e permitem que o público tenha diferentes pontos de vista sobre elas.

A presença dos cavaletes no Instituto Ricardo Brennand cria também uma conexão direta entre Recife e São Paulo. Elementos associados à arquitetura e à expografia do MASP passam a integrar o espaço da Pinacoteca do Instituto, estabelecendo uma relação entre as duas instituições e diferentes momentos da produção artística brasileira e internacional.

A coleção de Degas do MASP foi adquirida na década de 1950 por Pietro Maria Bardi, diretor fundador do museu. Segundo o MASP, o conjunto está entre as coleções de esculturas de Degas de maior relevância internacional, ao lado de acervos mantidos pelo Glyptotek, de Copenhague, pelo Metropolitan Museum of Art, de Nova York, e pelo Musée d’Orsay, de Paris.

Além de “Bailarina de catorze anos”, a exposição reúne trabalhos como “Bailarina fazendo a reverência”, “Bailarina que calça a sapatilha direita”, “Bailarina ajeitando a cordinha da malha” e “A tina”. As peças evidenciam o interesse de Degas pelo movimento, pela anatomia e pelas diferentes posições assumidas pelo corpo.

Para Beth da Matta, a aproximação entre a obra histórica e a produção contemporânea permite ampliar a compreensão sobre o próprio tempo. A curadora defende a possibilidade de “olhar pro passado, refletir sobre ele”, relacionando essa reflexão à sociedade atual.

É essa perspectiva que estrutura “Degas/Borges”: colocar uma coleção histórica diante de um olhar contemporâneo sem retirar as obras de seu contexto original. A exposição convida o público a observar novamente esculturas conhecidas, considerando tanto a pesquisa formal de Degas quanto as histórias sociais presentes por trás de suas personagens.

“Degas/Borges” permanece em cartaz até 10 de janeiro de 2027, na Pinacoteca do Instituto Ricardo Brennand. A visitação ocorre às terças e quartas-feiras, das 13h às 17h, e de quinta-feira a domingo, das 10h às 17h. Os ingressos custam a partir de R$ 30, na meia-entrada, e podem ser adquiridos na bilheteria do Instituto ou antecipadamente.

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